• Várzea Grande, 21/05/2026
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Lucas Gonçalves

Terras raras: o Brasil acordando tarde para uma guerra que nunca esperou por nós

País tem uma das maiores reservas do mundo, mas ainda não transformou riqueza em poder e potências estrangeiras já se movem sobre o nosso subsolo.


Terras raras: o Brasil acordando tarde para uma guerra que nunca esperou por nós

Nos últimos dias, a expressão“terras raras” saiu dos relatórios técnicos, dos estudos geológicos e dosdebates especializados para ocupar o noticiário brasileiro. De repente, um temaque parecia distante da vida comum passou a ser tratado como assunto desoberania nacional, disputa internacional e estratégia econômica.

E é exatamente isso que ele é.

O caso das terras raras revelauma contradição brasileira conhecida: temos riqueza, temos território, temospotencial, mas frequentemente não temos projeto. Enquanto outros países tratamseus recursos estratégicos como instrumentos de poder, o Brasil ainda costumatratá-los como algo comum, pauta emergencial ou moeda de negociação.

Inicialmente é preciso entendero objeto dessa fala. As terras raras são um grupo de 17 elementos químicosusados em tecnologias fundamentais do mundo contemporâneo, como motoreselétricos, turbinas eólicas, baterias, equipamentos eletrônicos, satélites,foguetes, mísseis e sistemas de defesa. Não são chamadas de “raras” porqueinexistem na natureza, mas porque sua extração, separação e beneficiamento sãocomplexos, caros e altamente estratégicos. Em outras palavras: não adiantamuito ter apenas a riqueza no subsolo. É preciso dominar a cadeia quetransforma minério em tecnologia.

É aqui que reside o problemabrasileiro.

O Brasil possui uma das maioresreservas de terras raras do mundo. Segundo dados do Serviço Geológico do Brasile do USGS, o país tem cerca de 21 milhões de toneladas, aproximadamente 23% dasreservas globais conhecidas. Mas, em 2024, produziu apenas 20 toneladas, menosde 1% da produção mundial, estimada em 390 mil toneladas. Ou seja: o Brasil tema riqueza, mas ainda não a transformou em poder econômico, industrial ougeopolítico. (The Mining Brasil)

Por sua vez, a maior potência noassunto atualmente, a China, fez exatamente o contrário.

Ao longo de décadas, complanejamento estatal, investimento, subsídios, desenvolvimento tecnológico edomínio das etapas mais valiosas da cadeia produtiva a China dominou o mercado.Hoje, a China responde por cerca de 70% da produção global de terras raras epor algo próximo de 90% da capacidade mundial de refino e processamento. Énesse ponto que está a verdadeira força chinesa: não apenas retirar o minérioda terra, mas controlar o processo que o transforma eminsumo indispensável para carros elétricos, turbinas, semicondutores earmamentos modernos.

Diante dessa soberania chinesa,os Estados Unidos e a Europa, mesmo sendo potências, se encontram em posiçãovulnerável. Não porque faltem discursos sobre soberania, mas porque faltacadeia produtiva. Segundo análise citada pela Al Jazeera, mesmo com vontadepolítica e bilhões de dólares em investimentos, os Estados Unidos e seus aliadospodem levar de 10 a 15 anos para construir uma cadeia capaz de reduzir adependência chinesa em mineração, processamento e fabricação de ímãs de terrasraras.

Enquanto isso, o Brasil, segundomaior detentor de reservas, assiste a uma movimentação intensa sobre seuspróprios recursos.

A única mina de terras raras emoperação no país, a Serra Verde, em Minaçu, Goiás, foi comprada pelanorte-americana USA Rare Earth por cerca de US$ 2,8 bilhões. Além disso, aoperação envolve um acordo de fornecimento de 15 anos para 100% da produção daprimeira fase da mina, destinado a uma estrutura capitalizada por fontesprivadas e pelo governo dos Estados Unidos.

Esse episódio não deve seranalisado de forma rasa. Investimento estrangeiro não é, por si só, umproblema. Em muitos setores, ele é necessário. O problema surge quando oinvestimento estrangeiro entra onde não existe uma estratégia nacional clara.Quando isso acontece, o país deixa de negociar a partir de um projeto próprio epassa a reagir ao projeto dos outros.

A pergunta, portanto, não éapenas quem comprou, por quanto comprou ou de onde veio o capital. A perguntaverdadeira é: onde estava o Brasil quando esse ativo estratégico estava sendoorganizado, financiado, protegido e integrado a uma cadeia global?

A reação veio tarde, mas veio.

Em maio de 2026, a Câmara dosDeputados aprovou o Projeto de Lei 2780/24, que cria a Política Nacional deMinerais Críticos e Estratégicos. O texto prevê incentivos ao setor, cria umfundo garantidor de até R$ 5 bilhões, institui mecanismos de acompanhamento deacordos internacionais e amplia o controle do governo sobre operaçõesenvolvendo minerais estratégicos. A proposta também cria o Conselho Especial deMinerais Críticos e Estratégicos, vinculado à Presidência da República.

A aprovação rápida doprojeto mostra que, quando o assunto é relevante, existe espaço paraconvergência. Base e oposição podem divergir em quase tudo, mas deveriamreconhecer que certas pautas ultrapassam governos, mandatos e disputaseleitorais. Minerais críticos, terras raras, energia, defesa, tecnologia e infraestrutura não podem sertratados como acessórios do debate político. São temas de continuidadenacional.

Mas a lei, sozinha, não resolveo atraso.

O Brasil ainda precisará formartécnicos, desenvolver pesquisa, financiar projetos, organizar licenciamento,criar plantas de beneficiamento, atrair investimento produtivo e, sobretudo,impedir que sua riqueza seja exportada apenas como matéria-prima barata. Odesafio não é apenas minerar. É agregar valor. É sair da posição confortável,mas pobre, de fornecedor de commodity e entrar na posição difícil, masestratégica, de país que domina tecnologia.

Essa é a lição que a Chinaentendeu antes de nós. A riqueza natural só vira poder quando existe políticade Estado. Sem isso, ela vira promessa, discurso ou concessão apressada.

O Brasil, por sua vez, temdesperdiçado energia em debates internos de baixa qualidade, disputaspersonalistas e guerras políticas que consomem o país sem prepará-lo para omundo real. Enquanto discutimos balbúrdias intermináveis, as grandes potênciasse movem com método. Compram ativos, controlam cadeias, financiam empresas,protegem tecnologias e transformam recursos naturais em instrumentos deinfluência internacional.

A arena internacional não ébrincadeira. Nenhuma potência espera o Brasil resolver suas crises de vaidadepara depois disputar o futuro conosco. A arena internacional é “selva”, quemnão ganha, perde. E o Brasil tem perdido muito.

O episódio das terras rarasdeveria servir como alerta. Independentemente de quem governe o Brasil daqui aum, cinco, dez ou vinte anos, o país continuará precisando existir, produzir,negociar e se defender. Governos passam. Interesses nacionais permanecem.

Se o Brasil quiser ser relevanteno século XXI, precisará abandonar a lógica de balcão de commodities e assumir,com seriedade, uma política de Estado para seus recursos estratégicos. Asterras raras não são apenas minerais escondidos no subsolo. Elas são um testesobre o tipo de país que queremos ser: uma nação que apenas vende riqueza brutaou uma nação capaz de transformar riqueza em tecnologia, soberania e futuro.



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