• Várzea Grande, 05/07/2026
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Lucas Gonçalves

Terras raras: o Brasil acordando tarde para uma guerra que nunca esperou por nós

País tem uma das maiores reservas do mundo, mas ainda não transformou riqueza em poder e potências estrangeiras já se movem sobre o nosso subsolo.


Terras raras: o Brasil acordando tarde para uma guerra que nunca esperou por nós

Nos últimos dias, a expressão "terras raras" saiu dos relatórios técnicos, dos estudos geológicos e dos debates especializados para ocupar o noticiário brasileiro. De repente, um tema que parecia distante da vida comum passou a ser tratado como assunto de soberania nacional, disputa internacional e estratégia econômica.

E é exatamente isso que ele é.

O caso das terras raras revela uma contradição brasileira conhecida: temos riqueza, temos território, temos potencial, mas frequentemente não temos projeto. Enquanto outros países tratam seus recursos estratégicos como instrumentos de poder, o Brasil ainda costuma tratá-los como algo comum, pauta emergencial ou moeda de negociação.

Inicialmente é preciso entender o objeto dessa fala. As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos usados em tecnologias fundamentais do mundo contemporâneo, como motores elétricos, turbinas eólicas, baterias, equipamentos eletrônicos, satélites, foguetes, mísseis e sistemas de defesa. Não são chamadas de "raras" porque inexistem na natureza, mas porque sua extração, separação e beneficiamento são complexos, caros e altamente estratégicos. Em outras palavras: não adianta muito ter apenas a riqueza no subsolo. É preciso dominar a cadeia que transforma minério em tecnologia.

É aqui que reside o problema brasileiro.

O Brasil possui uma das maiores reservas de terras raras do mundo. Segundo dados do Serviço Geológico do Brasil e do USGS, o país tem cerca de 21 milhões de toneladas, aproximadamente 23% das reservas globais conhecidas. Mas, em 2024, produziu apenas 20 toneladas, menos de 1% da produção mundial, estimada em 390 mil toneladas. Ou seja: o Brasil tem a riqueza, mas ainda não a transformou em poder econômico, industrial ou geopolítico. (The Mining Brasil)

Por sua vez, a maior potência no assunto atualmente, a China, fez exatamente o contrário.

Ao longo de décadas, com planejamento estatal, investimento, subsídios, desenvolvimento tecnológico e domínio das etapas mais valiosas da cadeia produtiva, a China dominou o mercado. Hoje, a China responde por cerca de 70% da produção global de terras raras e por algo próximo de 90% da capacidade mundial de refino e processamento. É nesse ponto que está a verdadeira força chinesa: não apenas retirar o minério da terra, mas controlar o processo que o transforma em insumo indispensável para carros elétricos, turbinas, semicondutores e armamentos modernos.

Diante dessa soberania chinesa, os Estados Unidos e a Europa, mesmo sendo potências, se encontram em posição vulnerável. Não porque faltem discursos sobre soberania, mas porque falta cadeia produtiva. Segundo análise citada pela Al Jazeera, mesmo com vontade política e bilhões de dólares em investimentos, os Estados Unidos e seus aliados podem levar de 10 a 15 anos para construir uma cadeia capaz de reduzir a dependência chinesa em mineração, processamento e fabricação de ímãs de terras raras.

Enquanto isso, o Brasil, segundo maior detentor de reservas, assiste a uma movimentação intensa sobre seus próprios recursos.

A única mina de terras raras em operação no país, a Serra Verde, em Minaçu, Goiás, foi comprada pela norte-americana USA Rare Earth por cerca de US$ 2,8 bilhões. Além disso, a operação envolve um acordo de fornecimento de 15 anos para 100% da produção da primeira fase da mina, destinado a uma estrutura capitalizada por fontes privadas e pelo governo dos Estados Unidos.

Esse episódio não deve ser analisado de forma rasa. Investimento estrangeiro não é, por si só, um problema. Em muitos setores, ele é necessário. O problema surge quando o investimento estrangeiro entra onde não existe uma estratégia nacional clara. Quando isso acontece, o país deixa de negociar a partir de um projeto próprio e passa a reagir ao projeto dos outros.

A pergunta, portanto, não é apenas quem comprou, por quanto comprou ou de onde veio o capital. A pergunta verdadeira é: onde estava o Brasil quando esse ativo estratégico estava sendo organizado, financiado, protegido e integrado a uma cadeia global?

A reação veio tarde, mas veio.

Em maio de 2026, a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 2780/24, que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. O texto prevê incentivos ao setor, cria um fundo garantidor de até R$ 5 bilhões, institui mecanismos de acompanhamento de acordos internacionais e amplia o controle do governo sobre operações envolvendo minerais estratégicos. A proposta também cria o Conselho Especial de Minerais Críticos e Estratégicos, vinculado à Presidência da República.

A aprovação rápida do projeto mostra que, quando o assunto é relevante, existe espaço para convergência. Base e oposição podem divergir em quase tudo, mas deveriam reconhecer que certas pautas ultrapassam governos, mandatos e disputas eleitorais. Minerais críticos, terras raras, energia, defesa, tecnologia e infraestrutura não podem ser tratados como acessórios do debate político. São temas de continuidade nacional.

Mas a lei, sozinha, não resolve o atraso.

O Brasil ainda precisará formar técnicos, desenvolver pesquisa, financiar projetos, organizar licenciamento, criar plantas de beneficiamento, atrair investimento produtivo e, sobretudo, impedir que sua riqueza seja exportada apenas como matéria-prima barata. O desafio não é apenas minerar. É agregar valor. É sair da posição confortável, mas pobre, de fornecedor de commodity e entrar na posição difícil, mas estratégica, de país que domina tecnologia.

Essa é a lição que a China entendeu antes de nós. A riqueza natural só vira poder quando existe política de Estado. Sem isso, ela vira promessa, discurso ou concessão apressada.

O Brasil, por sua vez, tem desperdiçado energia em debates internos de baixa qualidade, disputas personalistas e guerras políticas que consomem o país sem prepará-lo para o mundo real. Enquanto discutimos balbúrdias intermináveis, as grandes potências se movem com método. Compram ativos, controlam cadeias, financiam empresas, protegem tecnologias e transformam recursos naturais em instrumentos de influência internacional.

A arena internacional não é brincadeira. Nenhuma potência espera o Brasil resolver suas crises de vaidade para depois disputar o futuro conosco. A arena internacional é "selva": quem não ganha, perde. E o Brasil tem perdido muito.

O episódio das terras raras deveria servir como alerta. Independentemente de quem governe o Brasil daqui a um, cinco, dez ou vinte anos, o país continuará precisando existir, produzir, negociar e se defender. Governos passam. Interesses nacionais permanecem.

Se o Brasil quiser ser relevante no século XXI, precisará abandonar a lógica de balcão de commodities e assumir, com seriedade, uma política de Estado para seus recursos estratégicos. As terras raras não são apenas minerais escondidos no subsolo. Elas são um teste sobre o tipo de país que queremos ser: uma nação que apenas vende riqueza bruta ou uma nação capaz de transformar riqueza em tecnologia, soberania e futuro.



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