• Várzea Grande, 25/05/2026
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Lucas Gonçalves

GUERRA NO IRÃ

POSSÍVEIS CAUSAS, EFEITOS E CONCLUSÕES


GUERRA NO IRÃ

No fim do mês de fevereiro de 2026,o Irã foi atacado pelos Estados Unidos e por Israel em uma operação que chocouo mundo. O alto escalão da liderança iraniana foi decapitado, partesignificativa das forças militares do país foi destruída, e um senso deincerteza e temor se instalou na geopolítica global. Tudo ainda está envolto emnévoa — como é comum nos dias que se seguem a um conflito de tamanha magnitude—, mas, passadas algumas semanas, já é possível tentar compreender os contornosdesse evento histórico.

Este artigonão pretende oferecer respostas definitivas. Longe disso. O objetivo é maismodesto e honesto: reunir as hipóteses que circulam nos centros de análise enos fatos verificáveis disponíveis, organizar o debate e contribuir, de formasingela, para que o leitor possa construir sua própria visão sobre o que estáacontecendo.

I. POSSÍVEIS CAUSAS

O cenárioainda não é claro quanto às motivações que levaram EUA e Israel a tomarem essadecisão. Há, no entanto, algumas hipóteses que merecem análise séria.

1. A Janela de Oportunidade: o método Venezuela

Uma dashipóteses mais circuladas nos bastidores da análise estratégica é a de que EUAe Israel tiveram acesso a inteligência de alto valor e identificaram oagrupamento do alto escalão de liderança iraniano. Diante disso, teriamapostado em uma decapitação cirúrgica dos líderes, buscando replicar o quealguns analistas chamam de "método Venezuela": eliminar o líder,negociar com alguém do escalão inferior mais disposto ao diálogo, manter aestrutura estatal minimamente funcional e firmar acordos vantajosos com umaespécie de protetorado.

Ocorre que oIrã não é a Venezuela. Sua estrutura de poder é muito mais sofisticada,descentralizada e ideologicamente coesa — como ficou demonstrado pelacontinuidade do regime mesmo após a morte do aiatolá Khamenei. A sucessão,aliás, já estava sendo planejada em razão da avançada idade do Supremo Líder. Ométodo, portanto, pode ter funcionado parcialmente na etapa militar, mas pareceinsuficiente para produzir uma mudança de regime.

2. A Causa Interna: os Arquivos Epstein e a distração política

Uma segundahipótese, mais especulativa e politicamente sensível, aponta para motivaçõesdomésticas. Trump foi citado nos Arquivos Epstein, enfrenta desgastes com suabase fidelizada e não faltam analistas que especulam sobre o interesse dopresidente em “diversificar” a pauta.

É, todavia,uma possibilidade bastante remota como causa principal. Arriscar uma guerra noOriente Médio — com todos os seus custos em sangue, dinheiro e prestígio —apenas para abafar um escândalo seria um cálculo de risco muito elevado, atémesmo para um presidente que já demonstrou apetite por movimentos inesperados.Registra-se a hipótese, mas com a devida cautela.

3. Os EUA Arrastados por Israel: o que disse Rubio

Esta é,provavelmente, a hipótese que ganhou maior repercussão imediata e causou maisruído político. O secretário de Estado, Marco Rubio, em declarações noCapitólio, ofereceu uma explicação que rapidamente gerou controvérsia. SegundoRubio, os EUA "sabiam que haveria uma ação israelense", que isso"precipitaria um ataque contra as forças americanas" e que, se nãoatacassem preventivamente, "sofreriam baixas ainda maiores" — e,portanto, optaram por entrar no conflito antes.

Asdeclarações do secretário provocaram reação bipartidária nos EUA e racharam atéa base MAGA. Figuras como Matt Walsh e Tucker Carlson — aliados tradicionais deTrump — criticaram abertamente a narrativa. "Ele está nos dizendoclaramente que estamos em guerra com o Irã porque Israel forçou nossamão", escreveu Walsh. Israel, por sua vez, negou ter pressionadoWashington, e analistas apontam que Netanyahu dificilmente teria agido semaprovação explícita de Trump. O próprio Rubio recuou no dia seguinte, afirmandoque o ataque "tinha que acontecer de qualquer forma" em razão doprograma nuclear iraniano. A ambiguidade das justificativas oficiais, noentanto, permanece.

4. A Tese do Tabuleiro Geopolítico: Irã, China e o Estreito de Ormuz

Existe aindauma hipótese mais elaborada que aponta para a China como alvo real, ainda queindireto. Não por acaso, é possível identificar um padrão nos movimentos depressão americanos das últimas décadas: Venezuela e Irã são dois países quefornecem petróleo à China, muitas vezes a preços subsidiados e à margem dassanções ocidentais.

No primeirotrimestre de 2025, a China absorveu 38% de todo o petróleo que transitou peloestreito — o equivalente a 5,4 milhões de barris por dia. Cerca de metade detodas as importações de petróleo da China e 29% de suas importações de gásnatural liquefeito passam por ali. Fechar Ormuz é, na prática, cortar ocombustível que atende diretamente o mercado chinês. Portanto, um duro golpe nopaís que se apresenta como alternativa ao grande império norte-americano.

Há umelemento adicional que fortalece essa leitura: em 2021, Irã e China firmaram umacordo de cooperação estratégica de 25 anos, projetado justamente para amenizaro impacto das sanções americanas reativadas pelo governo Trump. Os iranianostambém forneciam cerca de 1,38 milhão de barris por dia às refinariasindependentes chinesas da província de Shandong, com descontos de 10 a 11dólares por barril. Com o Irã sob ataque e Ormuz fechado, esse fluxosimplesmente desaparece.

A ressalvaque se impõe é de ordem de estilo: essa hipótese é profundamente elaborada, oque não combina necessariamente com o método de Trump — explosivo, imprevisívele pouco afeito a estratégias de longo prazo. Pode ser que os efeitos sobre aChina sejam bem-vindos sem que tenham sido o gatilho principal da decisão.

II. POSSÍVEIS EFEITOS

Diante detanta incerteza nas causas, seria ingênuo imaginar certeza nos efeitos. O quese pode fazer é mapear os cenários possíveis — do mais tranquilo ao maisperturbador.

1. Nada: a continuidade do regime

Pareceparadoxal, mas o primeiro cenário a considerar é o da não transformação. Tudopode acontecer — inclusive nada. A morte de Khamenei foi um golpe simbólicoenorme, mas não necessariamente fatal para a estrutura do poder iraniano. Aocontrário dos regimes monárquicos do passado, nos quais eliminar o reiequivalia a conquistar o território, o alto comando iraniano é complexo,ideologicamente comprometido e distribuído. Como o próprio Líder Supremo eraidoso, a sucessão já havia sido planejada e, de fato, ocorreu.

É precisoainda lembrar que a revolução de 1979 teve apelo popular. Por mais que o regimetenha acumulado contradições ao longo de décadas, o povo iraniano escolheu essecaminho para se livrar de uma monarquia que muitos consideravam corrupta esubserviente ao Ocidente. Parte significativa da sociedade iraniana pode interpretaros ataques não como libertação, mas como agressão externa — o que tende afortalecer o nacionalismo e o próprio regime. Assim, apesar de toda adestruição, um dos desfechos possíveis é que a linha dura iraniana saia doconflito mais consolidada do que entrou.

2. Ataques Terroristas no Mundo: a guerra assimétrica

O Irã possuiuma característica conhecida em suas alianças: além de forças militaresconvencionais, é o principal financiador e articulador de uma rede de gruposarmados não-estatais espalhados pelo mundo — Hezbollah, Hamas, Houthis,milícias iraquianas e outras organizações. Enquanto estados, mesmo os mais agressivos,estão sujeitos ao Direito Internacional e guerreiam dentro de certos limitesimplícitos, grupos terroristas não operam sob essas regras.

O mundoaguarda uma retaliação iraniana por vias militares convencionais, mas aresposta pode vir por outros caminhos: ataques terroristas em capitaiseuropeias, ações contra interesses americanos e israelenses ao redor do globo,sabotagem de infraestrutura crítica. Essa modalidade de conflito — a guerraassimétrica — é muito mais difícil de conter e de atribuir, podendo aumentarsignificativamente a insegurança global nos próximos anos.

3. Uma Guerra Regional: o Oriente Médio em chamas

Passado osusto inicial — e o temor de uma Terceira Guerra Mundial que chegou a circularnas primeiras horas —, o cenário de conflagração global parece improvável. Masuma guerra regional é menos remota do que se desejaria. O Oriente Médio é umtabuleiro de rivalidades históricas: Irã, Azerbaijão, Armênia, Israel, Turquiae Arábia Saudita possuem interesses conflitantes que podem ser inflamados porum contexto de caos. A Arábia Saudita, em particular, deseja exercer aliderança regional e tem no Irã seu principal rival histórico.

Basesamericanas no Oriente Médio já foram atacadas em retaliação. O Estreito deOrmuz foi fechado pela Guarda Revolucionária, provocando impactos imediatos nospreços internacionais de energia — o barril do Brent acumulou alta de mais de9% em apenas três dias após o fechamento, chegando a 93 dólares. Se o bloqueiose prolongar, os efeitos sobre a economia global serão profundos: inflação,desaceleração do crescimento e volatilidade nos mercados financeiros.

A dimensãoregional do conflito ganhou contornos ainda mais alarmantes com a estratégiairaniana de retaliação ampla e difusa. O Irã lançou ataques de retaliaçãocontra alvos em Israel, bases norte-americanas e outras infraestruturas empaíses como Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Catar, Kuwait,Líbano, Jordânia, Omã, Iraque, Chipre e Turquia. O caso mais diplomaticamenteexplosivo, no entanto, foram os mísseis disparados em direção à Turquia — ummembro da OTAN que havia, ironicamente, condenado os ataques contra o Irã.

Há aindaoutra frente em formação, desta vez em solo: a CNN confirmou que a CIA estavatrabalhando para armar forças curdas com o objetivo de provocar uma revoltainterna no Irã, e que o próprio Trump telefonou para Mustafa Hijri, líder doPartido Democrático do Curdistão Iraniano. Cinco organizações curdas iranianasrivais formaram uma coalizão, e fontes do governo americano confirmaram que osEUA estão preparados para fornecer apoio aéreo caso combatentes curdos cruzem afronteira vindos do norte do Iraque. A operação, contudo, carrega umaambiguidade estrutural grave: armar os curdos iranianos pode irritarprofundamente a Turquia, aliada dos EUA na OTAN e adversária histórica dequalquer projeto de Curdistão independente, já que esse estado tomaria parte doterritório turco.

III. A SAÍDA POSSÍVEL — E O QUE FICA COMOMENSAGEM

Trump nãopode — e muito provavelmente não deseja — enviar tropas para solo iraniano. Hárazões políticas: a impopularidade da guerra é expressiva, e as pesquisasmostram que apenas cerca de 1 em cada 4 americanos apoia os ataques. E hárazões militares ainda mais determinantes: invadir o Irã por terra seriaincomparavelmente mais difícil do que foi a já custosa invasão do Iraque. O Irãé maior, mais montanhoso, com população mais mobilizada e forças armadas maissofisticadas.

Diante dessequadro, o cenário mais provável é que o governo americano declare vitória —argumentando ter eliminado Khamenei, destruído bases militares e interrompido oprograma nuclear iraniano — e recue diplomaticamente. Essa saída de honrapermite a Trump apresentar um trunfo político sem o custo de uma ocupaçãoprolongada.

Há, porém,uma ironia amarga nesse desfecho possível: o objetivo declarado — interromper oprograma nuclear iraniano — já havia sido afirmado como alcançado antes,inclusive pelo próprio Netanyahu na operação denominada "Leão Ascendente"afirmando que havia “destruído o poder nuclear iraniano”. A repetição do mesmoobjetivo sugere que ou ele nunca foi atingido de fato, ou que a narrativaoficial tem pouca relação com os objetivos reais.

Para o Irã,os cenários são igualmente difíceis. O país pode se tornar um novo Iraque:estado fragilizado, sem domínio do próprio espaço aéreo, dilacerado por facçõesétnicas e ideológicas em disputa pelo poder. Ou pode se reconstituir sob umregime ainda mais fechado e ressentido — o que tampouco é desejável.

Há, por fim,uma questão que nenhum analista responsável pode ignorar: o risco nuclear. Nãoé uma hipótese delirante. Na Guerra do Yom Kippur, Israel chegou a preparar ouso de armas nucleares, sendo contido pelos próprios americanos. Netanyahu,hoje, enfrenta uma situação política doméstica de enorme pressão e tem, como sediz diplomaticamente, pouco a perder. A ameaça, ainda que remota, existe.

CONCLUSÃO

Nada écerto. Tudo é incerto. E qualquer análise que se apresente como definitivasobre este conflito estará, provavelmente, equivocada. O que esta análisebuscou fazer foi outra coisa: organizar as perguntas certas, mapear os cenáriospossíveis e oferecer ao leitor um ponto de partida mais sólido para sua própriareflexão.

Há, noentanto, uma mensagem que parece clara entre a névoa: para o Irã e para outrospaíses que observam de fora, negociar com o Ocidente não oferece garantiasduradouras. Acordos são desfeitos, sanções são reativadas, e ataques militarespodem vir mesmo após negociações. Essa percepção — independentemente de quemtenha razão no mérito — tem consequências para a ordem internacional que vãomuito além do Oriente Médio.

 



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