No dia 22, faltou 22 no palanque
Em 2024, o senador flertou com Kalil; agora, espera o apoio de quem venceu.
Na política, a roda gira. Às vezes, gira tão rápido que quem ontem escolhia o palanque hoje fica esperando um lugar nele.
No começo de 2024, enquanto Flávia Moretti construía sua candidatura à Prefeitura de Várzea Grande pelo PL, o senador Wellington Fagundes, também do PL, sinalizava publicamente a possibilidade de apoiar a reeleição de Kalil Baracat, do MDB.
Na ocasião, Wellington declarou que mantinha “bom relacionamento” com Kalil, elogiou seu trabalho e afirmou: “Eu apoiei o Kalil, ele me apoiou”. O senador chegou a dizer que o PL poderia buscar um entendimento com o então prefeito, desde que a candidatura própria tivesse “qualidade e condições”. A declaração foi publicada em janeiro de 2024.
Flávia, porém, não saiu da disputa. Entrou desacreditada por parte da classe política e contrariou pesquisas que apontavam vantagem confortável de Kalil. Nas urnas, recebeu 68.760 votos, ou 50,54% dos válidos, contra 61.005 votos, ou 45,05%, de Kalil. A diferença foi de 7.755 votos.
Depois da vitória, até Wellington reconheceu que o resultado havia sido “praticamente inimaginável” e classificou o desempenho de Flávia como “extraordinário”. A manifestação ocorreu ainda em outubro de 2024.
Nos corredores políticos, o comentário era ainda mais pesado: Wellington teria tentado articular em Brasília a retirada de Flávia da disputa, sob o argumento de que ela não venceria e poderia desgastar o nome do PL. Não há comprovação pública dessa suposta articulação, mas o episódio permaneceu como uma das conversas mais repetidas nos bastidores daquela eleição.
A proximidade de Wellington com Kalil também passou pelos recursos destinados ao município. Em janeiro de 2021, durante a gestão do emedebista, foram anunciados R$ 5 milhões em emendas do senador para pavimentação e drenagem. Na mesma reunião, somadas as emendas de Wellington e Jayme Campos, o pacote chegou a R$ 16 milhões. Os valores foram divulgados pela própria Prefeitura à época.
Já na gestão Flávia, não foi localizado até agora um levantamento público consolidado que permita comparar, nas mesmas condições, quanto Wellington efetivamente destinou e quanto já foi pago ao município. Portanto, qualquer placar financeiro entre as duas administrações, sem a apresentação dos empenhos e pagamentos, seria precipitado.
Agora, quase dois anos depois da eleição municipal, o jogo virou. Wellington teve sua candidatura ao Governo de Mato Grosso homologada pelo PL nesta quarta-feira, dia 22. Mas, justamente no dia do número do partido, uma ausência chamou mais atenção que muita presença: Flávia Moretti não apareceu na convenção.
A prefeita afirmou que havia avisado o senador e explicou que não tinha “clima” para deixar a Prefeitura diante das urgências financeiras de Várzea Grande. Disse ainda que estava concentrada em números, planilhas e soluções para a cidade. Quando questionada sobre participar da campanha de Wellington, limitou-se a dizer: “Vamos ver a caminhada aí das convenções”. A declaração foi dada nesta quarta-feira.
Wellington, por sua vez, admitiu não contar com apoio declarado de Flávia e afirmou que não pretende obrigar prefeitos do partido a subirem em seu palanque. Segundo o senador, a participação será uma decisão pessoal.
Seria mágoa pelo que aconteceu em 2024? Vingança política? Gratidão a quem tem ajudado sua administração? Ou apenas justiça feita no silêncio?
A resposta ainda não veio. Mas o recado do dia 22 ficou: o número era do PL, a convenção era de Wellington e o lugar de Flávia permaneceu vazio.
Na política, não basta acreditar no jogo. Também é preciso lembrar em qual lado do palanque cada um estava quando a partida começou.



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