Decisão sobe, decisão desce e o lixo fica
Enquanto tribunais decidem e gabinetes discutem, quem trabalha e quem mora na cidade paga a conta da confusão.
Em Várzea Grande, a coleta de lixo virou um jogo de ping-pong jurídico. Na sexta decide uma coisa. No sábado, decide o contrário. Na segunda, ninguém sabe quem manda. O resultado é simples, previsível e nada técnico: lixo acumulado, garis inseguros e a população sem resposta.
A Justiça decide. A Prefeitura recorre. A empresa aguarda notificação. A outra diz que já assumiu. E os garis? Esses ficam no meio do fogo cruzado, sem saber a quem atender, a quem obedecer e, principalmente, se vão trabalhar ou não. Muitos, inclusive, foram contratados pela nova empresa e agora se veem presos em um limbo administrativo criado por decisões que não conversam com a realidade da rua.
É curioso. No papel, tudo parece organizado: liminar, suspensão, revogação, ordem judicial. Na prática, o caminhão não passa. O lixo não some sozinho. E o mau cheiro não espera despacho.
Quem defende que “a decisão judicial basta” esquece que serviço público não se executa apenas com PDF e carimbo. Existe equipe, logística, combustível, comando e, acima de tudo, clareza. Sem isso, o sistema trava. E travou.
Enquanto isso, os gabinetes seguem funcionando. Os processos seguem andando. Os recursos seguem sendo protocolados. Só a coleta não segue.
Dois prejudicados são evidentes e não sentam à mesa das decisões. Primeiro, os coletores, que vivem a insegurança do trabalho e da renda. Segundo, a população, que convive com lixo na porta de casa e assiste a uma disputa que parece não ter fim.
No fim das contas, essa novela prova uma velha verdade: quando o poder público perde o controle da gestão, quem sofre não está no tribunal nem no gabinete. Está na rua, no caminhão parado, na lixeira cheia e na paciência esgotada de quem só quer um serviço básico funcionando.
E lixo, definitivamente, não espera decisão.





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