• Várzea Grande, 28/05/2026
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Emersson Librelotto

Vaidades em guerra, Várzea Grande em espera

Quando a queda de braço vira prioridade, quem paga a conta é a população.


Vaidades em guerra, Várzea Grande em espera

Há uma guerra em Várzea Grande.

E, como em toda guerra política, muita gente tenta convencer a população de que existem apenas dois lados: de um lado, o Executivo; do outro, o Legislativo. Alguns dizem que um lado se chama Flávia Moretti. Outros juram que o outro lado se chama Wanderley Cerqueira.

Mas essa talvez seja a maior ilusão desse conflito.

Na verdade, Flávia e Wanderley, apesar das diferenças, apesar das disputas, apesar das estratégias, apesar dos grupos políticos distintos e apesar da guerra declarada nos bastidores e nos microfones, estão do mesmo lado.

Estão do lado de quem tem poder.

O poder de mandar projeto. O poder de pautar. O poder de votar. O poder de cobrar. O poder de destravar. O poder de remanejar. O poder de resolver. O poder de fazer Várzea Grande andar.

Do outro lado está a população.

E esse é o lado que mais sangra.

A população é chamada de patroa em época de campanha. É tratada como soberana no discurso. É lembrada como dona do mandato nos palanques. Mas, na prática, muitas vezes, parece que só pode “assinar a carteira” dos seus representantes de quatro em quatro anos, no dia da eleição.

Depois disso, assiste.

Assiste ao buraco continuar aberto. Assiste ao ônibus atrasar. Assiste à fila crescer. Assiste à cidade travar. Assiste aos discursos inflamados. Assiste às acusações. Assiste às vaidades vestidas de defesa do povo.

E o pior: às vezes, a própria população é empurrada para virar torcida.

Torcida de um lado. Torcida do outro. Torcida da prefeita. Torcida do presidente da Câmara. Torcida do grupo A. Torcida do grupo B.

Mas quem se comporta apenas como torcida nunca entra em campo. Nunca toca na bola. Nunca decide o jogo. Nunca levanta a taça.

E o povo de Várzea Grande não nasceu para ser arquibancada. Nasceu para ser o dono do estádio.

O problema é que, enquanto a cidade precisa de maturidade, parte da política parece preferir medir força. De um lado, há quem pareça reclamar que seus pedidos não foram atendidos. Do outro, há quem pareça não aceitar que nem tudo esteja sob seu controle.

No meio disso, coisas simples deixam de acontecer.

Buracos que poderiam ser resolvidos continuam virando paisagem. Demandas que poderiam ser encaminhadas ficam presas em disputas. Projetos que poderiam melhorar a vida da cidade viram peças de guerra. Recursos que poderiam atender áreas essenciais passam a ser usados como munição política.

E quando alguém aponta o problema, vem a resposta pronta: a culpa é do outro.

Se falta gestão, dizem que é culpa da Câmara. Se falta votação, dizem que é culpa da Prefeitura. Se falta eficiência, jogam no colo de servidor. Se falta articulação, culpam a oposição. Se falta entrega, culpam o passado. Se falta diálogo, culpam a vaidade alheia.

Mas ninguém quer admitir a pergunta mais incômoda:

E a população com isso?

Porque, no fim das contas, o cidadão não quer saber quem venceu a queda de braço. Ele quer saber quando a rua será arrumada. Quando o ônibus vai passar. Quando o posto vai atender. Quando o DAE vai funcionar. Quando a cidade vai parar de viver em modo de improviso.

A política, quando vira vaidade, deixa de ser instrumento público e passa a ser vitrine pessoal.

E Várzea Grande não aguenta mais servir de palco para guerra de ego.

O Executivo tem o dever de governar. O Legislativo tem o dever de fiscalizar, legislar e também contribuir para que aquilo que é bom para a cidade avance. Fiscalizar não é travar tudo. Governar não é ignorar todos. Oposição não é sabotagem. Base não é submissão. Independência não é guerra permanente.

A cidade precisa de equilíbrio.

Precisa de gente que saiba discordar sem destruir. Cobrar sem paralisar. Fiscalizar sem transformar tudo em espetáculo. Governar sem tratar crítica como afronta pessoal.

Porque, no final, Flávia passa. Wanderley passa. Os grupos passam. As maiorias mudam. As alianças mudam. Os discursos mudam.

Mas Várzea Grande fica.

E a conta fica para o povo.

A verdade é dura, mas precisa ser dita: a cidade não está sofrendo apenas por falta de dinheiro, por falta de projeto ou por falta de estrutura. Ela também sofre por excesso de vaidade.

Vaidade de quem quer mandar mais do que servir. Vaidade de quem quer vencer o adversário antes de vencer o problema. Vaidade de quem prefere aparecer certo do que resolver junto. Vaidade de quem transforma poder público em cabo de guerra.

Só que Várzea Grande não sobrevive de vaidade.

Sobrevive de ponte. De diálogo. De responsabilidade. De coragem. De renúncia pessoal. De política feita com menos teatro e mais resultado.

A guerra verdadeira não deveria ser entre Prefeitura e Câmara.

A guerra verdadeira deveria ser contra os buracos, contra a ineficiência, contra o abandono, contra o atraso, contra a falta de planejamento, contra o transporte ruim, contra a burocracia e contra a velha mania de usar o povo como argumento, mas não como prioridade.

Enquanto isso não acontecer, a cidade continuará presa a uma disputa em que os poderosos brigam pelo controle da narrativa, e a população continua tentando sobreviver à realidade.

E talvez esteja na hora do eleitor parar de torcer e começar a cobrar.

Porque quem paga imposto não é plateia.

É DONO!


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