Terça, 10h: Tião entrega a renúncia e escancara o racha
Vice eleito ao lado de Flávia sai pela porta da Câmara e transforma o adversário dela em peça ainda mais central no tabuleiro.
Várzea Grande amanhece diante de uma cena que a política adora produzir e o eleitor detesta assistir: o vice-prefeito Tião da Zaeli marcou para esta terça-feira, às 10h, a entrega da carta de renúncia justamente ao presidente da Câmara, Wanderley Cerqueira. Não é um detalhe. Em política, o endereço da saída também vira mensagem. E, dessa vez, a mensagem faz barulho.
O enredo fica ainda mais irônico porque Tião e Flávia Moretti foram eleitos na mesma chapa do PL, com discurso de mudança e promessa de reorganizar a cidade. Agora, o vice rompe dizendo que foi “enganado”, afirma que o que foi prometido ao eleitor não saiu do papel e abandona o cargo no exato momento em que Wanderley, hoje em rota de colisão com a prefeita, ganha ainda mais peso institucional como substituto imediato na linha sucessória. O palanque de ontem virou a contramão de hoje.
A crise não nasceu nesta segunda. Tião já vinha dizendo que era “mero coadjuvante”, criticando o que chamou de “loteamento político” e atacando a abertura de espaço para nomes de partidos que estiveram do outro lado na eleição. No meio desse desgaste, ele perdeu terreno em áreas sensíveis da gestão, como DAE e Educação, dois pontos que ajudaram a ampliar o rompimento. Quando o aliado começa a falar como oposição, é porque a fumaça já vinha saindo do telhado faz tempo.
E aqui mora a metáfora que mais machuca. O vice que dizia que a Câmara ajudava a gestão agora deixa o cargo fortalecendo, na prática, o mesmo presidente da Câmara que virou alvo de queixa-crime da prefeita e de pedido de cassação articulado pelo PL após a crise das declarações ofensivas. Várzea Grande assiste, assim, a um daqueles espetáculos em que o governo perde o reserva, o adversário cresce no palco e a população fica na arquibancada tentando entender quem ainda está jogando no mesmo time.
No pano de fundo, Tião já mira outro balcão de poder. Sua candidatura à presidência da Fecomércio-MT está posta, com eleição marcada para 18 de maio e cenário de chapa única, o que reforça a leitura de que o projeto político mudou de endereço. Traduzindo sem enfeite: quando a promessa de campanha bate de frente com o poder real, tem aliança que não vira gestão, vira só foto antiga de santinho.




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