• Várzea Grande, 03/03/2026
  • A +
  • A -
Publicidade

Lucas Gonçalves

O Possível Fim da Ordem Internacional: Como Isso Afeta o Seu Bolso e a Sua Paz

Lucas da Silveira Gonçalves é advogado, sócio do escritório FMG em Cuiabá.


O Possível Fim da Ordem Internacional: Como Isso Afeta o Seu Bolso e a Sua Paz

Possível Fim da Ordem Internacional: Como Isso Afeta o Seu Bolso e a Sua Paz

Você já parou para pensar por que, apesar de tantas crises, o mundo não entrou em uma Terceira Guerra Mundial? A resposta não está na sorte, mas em algo que você provavelmente ignora: a Ordem Internacional e o Direito Internacional.

 

Hoje, o debate político está mais agressivo do que nunca. A polarização se espalhou pelo planeta, e o resultado é um desprezo crescente por instituições como a ONU. Muita gente acha que a ONU é inútil, lenta ou burocrática. O que a maioria não sabe é que essa "burocracia" é, na verdade, um escudo que protege a todos nós.

 

A "Ficção" que Impede a Guerra

O ex-Primeiro-Ministro do Canadá, Mark Carney, disse algo muito importante em Davos em 2026: a ordem internacional é uma "ficção agradável". Ele não quis dizer que é uma mentira, mas sim que é um acordo que todos fingem seguir, mesmo que os mais fortes tentem burlar as regras de vez em quando.

 

Essa "ficção" tem um poder gigantesco: ela tem a função primordial de impedir que o mais forte invada o mais fraco. As regras internacionais funcionam como um freio de mão moral e legal. No entanto, o desrespeito a essa ordem pelas grandes potências — como nas intervenções no Iraque (2003) e em Kosovo (1999) — abriu um precedente perigoso. Não é coincidência que, após esses atos unilaterais, outros países e grupos tenham seguido o mesmo caminho, como a Rússia na Geórgia e na Crimeia, ou o Azerbaijão em Nagorno-Karabakh. A quebra da regra por quem deveria defendê-la é o que nos trouxe a este estado crítico.

 

Desde que a ONU foi criada em 1945, não tivemos mais uma guerra global. As duas Guerras Mundiais, juntas, mataram cerca de 100 milhões de pessoas. Todos os conflitos que vieram depois, por mais trágicos que sejam, não chegam nem perto desse número. Admitir que a ONU é a única responsável por isso seria infantilidade, mas negar seu papel central seria um erro histórico. A ONU, através de suas missões de paz (como na Namíbia em 1989) e de seus fóruns de mediação, evitou que inúmeras crises regionais se transformassem em conflagrações globais. Sua mera existência é um sinal de que há esperança no multilateralismo. É o resultado de um sistema que, mesmo imperfeito, força a diplomacia.

 

O Que Acontece Se a Ordem Cair?

O fim da ONU e o colapso do Direito Internacional não são problemas apenas para diplomatas de terno. É um problema que atinge diretamente a sua vida.

 

1. Seu Bolso: Vivemos em um mundo globalizado. O celular que você usa, o café que você bebe e a gasolina que abastece seu carro dependem de cadeias de suprimentos que cruzam o planeta. A Ordem Internacional garante que navios possam navegar em segurança e que as regras de comércio sejam respeitadas. Se a lei do mais forte voltar, países podem começar a bloquear rotas marítimas, impor tarifas abusivas ou confiscar mercadorias. O resultado? Seu custo de vida dispara, a inflação explode e a economia entra em colapso.

 

2. Sua Segurança: Sem regras, voltamos ao século XIX, onde a força militar era a única lei. As nações mais poderosas fariam o que quisessem, sem medo de sanções ou condenação internacional. O Brasil, como país em desenvolvimento, ficaria à mercê dos interesses das grandes potências.

 

3. O Risco de Extinção: O detalhe mais assustador é que, da última vez que o mundo não teve regras claras, não existiam armas nucleares. Hoje, o mundo está armado até os dentes, com tecnologia militar avançadíssima.

 

A queda da Ordem Internacional é como devolver fósforos para uma criança em um posto de gasolina. O risco de uma explosão generalizada é muito maior do que em qualquer outro momento da história.

 

Portanto, é fundamental que o debate público no Brasil e no mundo demonstre cuidado com o que deseja e com o que importa. A crítica à Ordem Internacional é legítima e necessária; a busca por reformas que a tornem mais justa, representativa e eficaz é um imperativo. Contudo, o desejo por sua destruição total é um erro estratégico com consequências catastróficas. Mais do que a vitória ou derrota de um candidato político, o que está em jogo é o legado de 80 anos de institucionalidade que, mesmo imperfeita, impediu o retorno à barbárie em escala global. A "ficção impeditiva" da ONU e do Direito Internacional é o que garante que o cidadão comum possa viver em um mundo onde a força não é a única lei. O seu fim é, inegavelmente, muito mais assustador do que se pode imaginar.


Lucas da Silveira Gonçalves é advogado, sócio do escritório FMG em Cuiabá.



COMENTÁRIOS

LEIA TAMBÉM

Buscar

Alterar Local

Anuncie Aqui

Escolha abaixo onde deseja anunciar.

Efetue o Login

Recuperar Senha

Baixe o Nosso Aplicativo!

Tenha todas as novidades na palma da sua mão.