Andréa Maria Zattar
Pirlimpimpim: Apito Final, Silêncio Geral!
2026 chega com a Copa do Mundo e as eleições no calendário
Dois acontecimentos capazes de concentraratenções, mobilizar emoções e deslocar o debate público. A bola rola, astorcidas ocupam ruas e telas; depois, candidatos disputam o púlpito. Mas entreum apito final e o primeiro comício, nem todas as vozes acompanham o fluxo.Algumas se perdem. Outras são dobradas e guardadas no bolso.
Narrar a realidade, nesses tempos, é um ato decoragem. Há histórias que distraem com euforia fugaz, como o pó de pirlimpimpimdo Sítio do Picapau Amarelo, capaz de teletransportar sem esforço, semtravessia. A Copa faz o mesmo: arrasta milhões para estádios, bares e festascoletivas, onde o real se dissolve, ainda que por instantes.
Mas nem todos se deixam levar. Enquantomultidões seguem o fluxo do espetáculo, há quem interrompa o trajeto e insistaem permanecer atento ao que acontece quando a festa termina. É nesse ponto queEmília entra em cena.
Nem todos embarcam no mundo da fantasia. Emília, a boneca falante criadapor Monteiro Lobato, vai, mas volta. Participa da mágica, atravessa mundos, masnão se perde. Questiona o roteiro. Fala alto demais, incomoda demais. “Por queisso? E agora?”, provoca, trazendo o real de volta ao centro.
O preço vem rápido. Dona Benta dobra a boneca falante no bolso. O silêncio se impõe,não por falta de resposta, mas porque refutá-la exigiria encarar osquestionamentos.
Fora da ficção, não é muito diferente. Quandovozes assim são caladas, o espaço é ocupado pelo espetáculo. Slogans simples,distrações convenientes, narrativas que confortam. Os problemas persistem.Propostas são apresentadas, discursos se acumulam, mas pouco se transforma.
Cultura, esporte e lazer são importantes:mobilizam, reúnem, criam vínculos. Fazem parte da vida coletiva e não devem serdesprezados. Mas educação, saúde e saneamento são indispensáveis. Quando oespetáculo ocupa todo o espaço, o risco não está na festa, mas no silêncio quese forma em torno do que sustenta a vida cotidiana.
Que neste ano a torcida não se limite àseleção brasileira, aos jogadores que entram em campo. Que a torcida, e acobrança, se voltem para a saúde, a educação, o saneamento, as obras públicas.Porque o jogo decisivo não acontece apenas nos estádios.
A fantasia pode até suspender a realidade poralguns instantes. Mas é sempre o retorno que importa.
Quando o apito final soa e o espetáculo seencerra, você volta para questionar ou prefere ficar no bolso?
AndreaMaria Zattar, advogadatrabalhista, previdenciarista, membro da Associação Brasileira das Mulheres deCarreira Jurídica – ABMCJ; membro efetivo da Comissão de Direito do Trabalho daOAB/MT, articulista e ativista em causas sociais.





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